
O Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, FESTin, decorre em Lisboa até este domingo, 11 de Outubro, com cerca de 60 filmes e uma programação que procura afirmar a diversidade dentro do espaço lusófono. Na 17.ª edição, que coincide com os 30 anos da CPLP, sete realizadores de países africanos de língua portuguesa levam ao festival histórias sobre memória, migração, identidade, tradição e condição feminina. Para a directora artística do FESTin, Adriana Niemeyer, a presença dos PALOP não serve para construir uma imagem única do cinema africano de língua portuguesa. O objectivo é mostrar cinematografias que partilham uma língua, mas nascem de sociedades, histórias e referências distintas. “A língua portuguesa tem vários sotaques, representa várias culturas. Somos muitos, somos irmãos, mas também temos as nossas singularidades”, afirma. O festival reúne este ano sete filmes de sete realizadores de diferentes países africanos, embora a presença das curtas-metragens continue a ser superior à das longas. Adriana Niemeyer associa essa diferença às próprias condições de produção. “Existe uma grande dificuldade de meios para produzir longas-metragens”, explica. A escassez de financiamento, estruturas técnicas e incentivos continua, segundo a directora artística, a limitar a capacidade de muitos cineastas de transformar projectos mais ambiciosos em filmes. Um filme produzido em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe não é escolhido para representar uma suposta experiência africana comum, da mesma forma que Portugal, Brasil ou Timor-Leste não são tratados como variações de uma única cultura. “Respeitamos a singularidade, as características, a cultura e o modo de pensar de cada país”, sublinha Adriana Niemeyer. “Um filme que pode ter sucesso em Timor-Leste não é necessariamente o mesmo que pode ter sucesso no Brasil.” Memória, migração, condição feminina, tradição ou precariedade surgem repetidamente na programação, mas assumem significados diferentes consoante o lugar de onde as histórias são contadas. “Tentamos procurar em cada país uma questão que apresente a sua realidade”, explica a directora artística. O cinema funciona, assim, menos como ilustração da CPLP do que como instrumento para perceber aquilo que uma língua comum, por si só, não consegue revelar. Adriana Niemeyer defende também que essa diversidade só pode existir plenamente se os próprios países tiverem condições para produzir as suas imagens. “Quando realizam, são criativos e mostram realmente o que é a realidade”, afirma. A directora do FESTin lamenta que muitos realizadores continuem sem apoio financeiro, material ou institucional e considera que os governos deveriam incentivar mais a produção audiovisual local. Não se trata apenas de produzir filmes, mas de garantir que cada sociedade dispõe de meios para contar as suas próprias histórias e construir as suas referências. A questão torna-se mais importante num mercado audiovisual dominado por grandes produções internacionais e plataformas. “Estamos a ver séries americanas, Netflix, e acabamos por não ver as nossas realidades”, observa. O risco, acrescenta, é que os espectadores passem a tomar como modelo experiências que pouco têm que ver com as sociedades em que vivem. “O cinema regional tem um papel muito importante”, defende, justamente porque permite que um país se veja a si próprio antes de ser visto através de imagens produzidas por outros. Para os realizadores africanos, Lisboa pode também funcionar como ponto de passagem para outros circuitos. Segundo Adriana Niemeyer, o FESTin recebe hoje um número significativo de candidaturas provenientes dos PALOP e conquistou reconhecimento entre cineastas desses países. “O FESTin é uma montra internacional para os filmes africanos”, afirma. A presença no festival pode abrir contactos na Europa, criar possibilidades de co-produção e levar as obras a outros públicos. “Um dos nossos grandes objectivos era ser uma montra para novos talentos.” Parte dos filmes segue depois para exibições noutros países, permitindo que obras com circuitos comerciais reduzidos encontrem novos espectadores. Para Adriana Niemeyer, essa circulação dá conteúdo concreto à ideia de intercâmbio dentro da lusofonia, não basta afirmar que existe uma língua comum é necessário criar espaços onde os diferentes países possam conhecer aquilo que os outros produzem e a forma como se representam. No ano em que a CPLP completa 30 anos, Adriana Niemeyer coloca o conhecimento mútuo no centro do papel do cinema. “Quando se cria conhecimento, criam-se relações”, afirma. E resume essa função através de uma imagem “se não se viaja, o cinema é uma viagem sem estar lá.” Durante estes dias em Lisboa, o FESTin propõe essa viagem por uma comunidade que partilha uma língua, mas cuja riqueza está também nas diferenças que essa língua transporta.