
A Arábia Saudita reconheceu, esta segunda-feira, 12 de Outubro, que as infra-estruturas do reino estão a ser “postas à prova” na sequência da série de ataques mortíferos dos hutis do Iémen, nomeadamente contra o aeroporto de Riade, prometendo uma “resposta firme”. Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita. As hostilidades foram retomadas em Julho entre os hutis e as forças governamentais iemenitas, apoiadas militarmente pela Arábia Saudita, e intensificaram-se em Setembro. No entanto, a dimensão dos ataques contra a Arábia Saudita atingiu, nos últimos dias, níveis sem precedentes, expondo as fragilidades defensivas do país, apesar dos avultados investimentos em equipamento militar de ponta. Os hutis do Iémen reivindicaram este domingo a realização de “operações de grande envergadura”, nomeadamente um ataque ao aeroporto de Riade “em três fases”. O ataque de sábado, o mais mortífero em território saudita em dez anos, provocou 309 feridos, além dos 13 mortos. O Irão, que apoia os hutis, manifestou-se, esta segunda-feira, “profundamente preocupado com a evolução da situação”, e diz-se disponível para “facilitar o diálogo entre as partes”, embora sem condenar os ataques. Perante a escalada dos ataques dos hutis, a Arábia Saudita enfrenta uma escolha que poderá determinar a evolução do conflito no Médio Oriente: responder militarmente e arriscar uma nova espiral de violência ou conter-se para evitar que as hostilidades se alarguem a outros países. Em entrevista à RFI, António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, considera que a situação poderá agravar-se nos próximos tempos e alerta para os riscos de uma retaliação saudita, num contexto em que a capacidade militar dos hutis ameaça a segurança do reino e o controlo de rotas marítimas estratégicas. RFI: Estamos perante uma escalada pontual ou no início de uma nova fase do conflito entre Arábia Saudita e os hutis? António Gonçalves Alexandre, professor de Relações Internacionais: Eu creio que temos que analisar isto com alguma distância temporal. De facto, estes ataques são recentes, mas tudo começou - como disse - em 2014, quando o movimento dos hutis se revoltaram com o poder central no Iémen. Capturaram logo depois a capital Sana e aproximaram-se geograficamente dos limites da fronteira com a Arábia Saudita. Isso levou a que a Arábia Saudita no ano seguinte, 2015, desse início a uma campanha de apoio ao governo reconhecido internacionalmente do Iémen, com o intuito de conter o avanço dos hutis. Porquê? Porque se sentiram ameaçados. Portanto, a Arábia sentiu-se ameaçada. Isto estendeu-se até 2022 e em 2022 o conflito com a Arábia entrou naquela fase de congelamento. É usual nos tempos que correm, vários conflitos não são resolvidos, são congelados. E qual é o problema destes conflitos? É que podem descongelar a qualquer momento. E qual foi o 'trigger' neste caso, neste conflito que estava, digamos, pacificado desde 2022? Foram precisamente os ataques de Israel, primeiro, sofridos pelo Hamas no sul do seu território e depois a resposta musculada que tiveram. Isso levou, de facto, os hutis a reagirem. Nós sabemos que há uma proximidade dos hutis ao Irão e portanto houve uma reacção dos hutis, tentaram atacar primeiro Israel directamente, apoiando não apenas o Hamas, mas os palestinianos. Não correu bem porque todos os seus mísseis e drones foram interceptados e a opção depois foi começar a atacar a navegação mercante no sul do Mar Vermelho. Isso fez com que recentemente e já estamos agora a falar, obviamente, do conflito que opõe Israel e os Estados Unidos ao Irão, fez com que recentemente a Arábia Saudita, perante esses ataques, voltasse a sentir-se insegura. E quando isso acontece, a reacção foi aquela que Arábia Saudita teve: atacou um avião de transporte estacionado, que teria vindo do Irão para o Iémen, no aeroporto Sana, supostamente com o material de guerra para os hutis, e isso despoletou depois a contra-reacção. E o que temos vindo a viver, desde então, é a acção e a contra-reacção, que está a crescer. Mas há uma escalda nos últimos dias? Exactamente. Vamos ver o que é que vai acontecer, porque também à Arábia Saudita chegou a pedir, há muito pouco tempo, o apoio dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não lhes deram esse apoio. A Arábia Saudita tem agora esta coligação com a Turquia e o Paquistão. Uma coligação de defesa. Mas, de facto, está a sentir esses ataques dos hutis que estão a tentar de alguma forma - ao fazer o que estão a fazer -com este 'modus operandi' favorecer o seu grande aliado regional que é o Irão e portanto, não há elementos de informação suficientes para perceber como é que isto pode evoluir. Mas as tendências, na minha perspectiva, é que isto possa vir a agravar-se mais ainda no futuro próximo. A Arábia Saudita denunciou um "crime de guerra" ao qual promete responder com "firmeza". Ao mesmo tempo, Riade está num dilema: vai responder militarmente para preservar a sua credibilidade ou vai evitar a escalada que pode significar uma nova guerra? No auge do conflito, que aqui ainda se mantém embora a intensidade tenha diminuído, entre Estados Unidos e Israel e o Irão, a resposta do Irão foi atacar tudo o que eram interesses norte-americanos na região e, também, na Arábia Saudita. A Arábia Saudita, perante estes ataques e alguns foram ataques fortes, não reagiu. Optou por não o fazer, não reagir precisamente para evitar uma escalada do conflito. Agora é diferente, porque não é um estado, é o movimento que controla uma parte do Iémen. A análise que eu faço é que, de facto, que a Arábia Saudita possa vir a intensificar a resposta. Não o fez, ainda estará a pensar qual será a melhor resposta. Repare que o Presidente [norte-americano, Donald] Trump disse que estava a pensar se os Estados Unidos desta vez poderiam ou não auxiliar Arábia Saudita nessa resposta. Até agora, Washington não deu seguimento à nenhum pedido de apoio saudita. Não deu e, creio, que não deixa de ser retórica por parte do Presidente Trump, que nos tem habituado a isto, pelo menos nos últimos meses. E não é bom para os Estados Unidos, que tem esta frente aberta com o Irão, abrir novas frentes, com os úteis hutis e, enfim, com outros movimentos, porque isso pode agravar muito mais a situação na região. E numa altura em que os Estados Unidos querem a todo o custo controlar os preços da energia. Repare neste acordo que fez agora com o 'senhor' Putin [Vladimir Putin, Presidente da Rússia]. Qualquer iniciativa que leve a que os preços possam de alguma forma aumentar é má para ele [Donald Trump] e para o Partido Republicano, que vai ter eleições intercalares. Portanto, eu julgo que dificilmente os Estados Unidos se envolverão, a não ser que seja uma questão absolutamente existencial para a Arábia Saudita, o que não creio que tenhamos chegado a essa situação. E em relação aos hutis, têm efectivamente a capacidade militar para concretizar estas ameaças? Os hutis ameaçam todos os aeroportos da Arábia Saudita. Sim, repare que eles têm drones, têm drones com alcance mais curto, na ordem de 250 quilómetros, mas depois têm mísseis de cruzeiro que irão até cerca de mil quilómetros e depois mísseis balísticos que são os mais complicados para as defesas anti-aéreas que podem ir numa versão até aos 1.200 quilómetros e na outra quase até aos 1.400, 1.500. E, portanto, de alguma forma, foi isso que lhes permitiu tentar visar, no início da sua resposta, Israel, quando Israel desencadeou aquela acção na Faixa de Gaza, foi isso que permitiu tentarem atingir solo israelita. E, portanto, é óbvio que a Arábia está dentro do envelope de todas as armas que os hutis possuem e, obviamente, que existem vários alvos passíveis de serem atacados pelas armas que os hutis dispõem de momento. Portanto, os hutis ao conseguirem esta ameaça efectiva sobre o espaço aéreo saudita e ao também conseguirem influência no Estreito Bab el Mandeb, estão a afectar o equilíbrio estratégico do Médio Oriente. Completamente. Neste momento, o Estreito de Ormuz está, como eu costumo dizer, duplamente fechado. Portanto, está fechado pelo Irão e depois também pelas forças navais americanas que estão no Golfo de Omã, fora do Estreito. E depois há uma predominância muito grande, um controlo quase efectivo dos hutis que controlam praticamente toda a faixa do Iémen no Mar Vermelho. E, sobretudo, controlam o acesso ao Mar Vermelho, vindo do Índico, vindo do Golfo de Aden. E isso dá-lhes um poder tremendo. Isso significa, no limite, que se houver esse controlo total dos dois estreitos da navegação em trânsito por aqueles dois pontos de estrangulamento, isso dá-lhes um poder enorme em toda a região. É muito significativo. E sobretudo ao Irão, obviamente, porque os hutis são um 'proxy' do Irão na região. E como é que se sai deste impasse? Eu diria que essa é a pergunta que toda a gente gostava de responder. Como em qualquer conflito, a negociação e a diplomacia devem prevalecer quando não há uma solução militar para as questões. E, na minha perspectiva, não há uma solução militar, tanto no Golfo de Ormuz quanto na região ocupada pelos hutis e o controlo do estreito de Bab el Mandeb. Não havendo, terá que a diplomacia entrar e terão que haver cedências. As partes terão que ceder, mas para isso é preciso que haja primeiro uma pacificação. Isto vem de encontro à sua pergunta inicial que tem a ver com a reacção da Arábia Saudita. Se a resposta da Arábia Saudita for musculada, isso vai provocar uma contra-reacção dos hutis, seguramente. Portanto, eu julgo que será isso que estará a ser analisado, o tipo de resposta que vai haver, se é que vai haver. Porque se esta espiral de violência não for parada, não há lugar à negociação e à diplomacia. Para a Arábia Saudita há um problema de segurança, mas há também um problema de imagem, de estabilidade do reino, que acaba por ser deitada por terra, pelo menos internacionalmente. A Arábia Saudita deveria e deverá acolher este mês de Outubro uma série de grandes conferências internacionais. Se esta segurança é posta em causa, estamos a falar num impacto de que escala para a economia saudita? Um impacto tremendo, porque a estabilidade tem sido fundamental para que o reino saudita tenha conseguido atingir os objectivos a que se tem vindo a propor. E um deles estende-se no tempo até 2030. Portanto, precisam de estabilidade para atingir esses objectivos. É evidente que tudo o que está a acontecer e o que poderá ainda vir a acontecer no futuro vai trazer à região tudo menos essa estabilidade que é necessária. Portanto, quando os próprios aeroportos estão sujeitos a ataques dos hutis, quando os próprios hutis já frisaram que poderão visar outros aeroportos para além do aeroporto de Riade que foi atacado e já foi atacado mais de uma vez - é bom nos lembrarmos disso - isso é uma imagem de instabilidade permanente. As organizações que têm na agenda a presença na Arábia é tudo o que não querem. Não querem, obviamente, estar num local que seja instável e inseguro. E isso deve estar a pesar na decisão que a Arábia vai tomar, mas para um bem maior, isso se calhar deve no mínimo ser equacionado e julgo que o terá de ser neste momento. A 07 de Agosto deste ano, a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, que prevê, grosso modo, que um ataque armado contra um destes países seja considerado como um ataque contra todos. Este acordo assinado entre estes três países, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, pode transformar este conflito com os hutis num confronto regional mais amplo ou é que instrumento de dissuasão? Pode efectivamente. Nós não sabemos exactamente tudo sobre esse acordo. Se for parecido com o famoso artigo cinco do Tratado de Washington, da NATO, a Aliança Atlântica pressupõe que um Estado, neste caso a Arábia Saudita, terá que invocar essa alínea ou esse artigo para que os demais Estados, a Turquia e o Paquistão, possam actuar de uma forma concertada. Portanto, eu creio que a Arábia Saudita ainda não activou esse artigo. Também não sei em que circunstâncias é que pode ser activado, porque, como digo, uma coisa é o que nós sabemos grosso modo. Esse acordo é muito recente. Portanto, temos que perceber de que forma é que essas duas potências, que são próximas, mas exteriores àquela região, podem intervir em apoio da Arábia Saudita. E também temos que ver se a Arábia Saudita quer que esse apoio se manifeste na prática. Em todo o caso, se de facto esse apoio vier a ser solicitado e vier a ser concedido pelas outras duas potências, isso vai alargar claramente o âmbito do conflito que está muito confinado àquela região do Médio Oriente, mas muito centrado na Península Arábica, e vai extravasar os limites geográficos da Península Arábica vai progredir para além das fronteiras, o que não é nada bom para todos e para a comunidade internacional também não é.