
A Rússia e a Ucrânia voltaram a trocar ataques durante a madrugada desta terça-feira, 13 de Outubro, numa ofensiva que provocou pelo menos três mortos e vários feridos em território ucraniano. A intensificação dos bombardeamentos ocorre dias depois de Washington e Moscovo terem anunciado um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de contribuir para a descida dos preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares midterms nos Estados Unidos. O analista político Germano Almeida considera que este acordo "representa uma traição completa à Ucrânia", sublinhando que o entendimento não deverá ter qualquer impacto significativo nos preços dos combustíveis. Washington e Moscovo anunciaram, na semana passada, um acordo que prevê o fornecimento de gasóleo russo aos mercados norte-americano e internacional, com o objectivo de reduzir os preços dos combustíveis, a menos de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos. Com este anúncio, Donald Trump quis fazer um cálculo eleitoral? Enfim, trata-se de uma fantasia de cálculo eleitoral. O objectivo era, de facto, esse, mas nem sequer esse resultado deverá ser alcançado. O impacto será “pífio”, desde logo porque, neste momento, a Rússia não tem grande disponibilidade para colocar petróleo e derivados no mercado, tendo em conta os ataques ucranianos bem-sucedidos, que reduziram em 45% a capacidade de refinação russa. Por outro lado, basta olhar para os primeiros números associados ao que foi anunciado. O primeiro fornecimento deverá ser de 300 mil litros de gasolina. Estamos a falar de uma quantidade que corresponde, sensivelmente, ao consumo norte-americano de um dia. Não terá um impacto significativo, se é que terá algum.Até agora, não houve qualquer efeito nos preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Antes do acordo, o preço por litro era de 6,28 dólares e agora é de 6,29 dólares. Não há, portanto, qualquer efeito relevante. A subida dos preços resulta da guerra disparatada, errada e imprudente desencadeada por Trump. Antes da guerra, a média era de 3,47 dólares, a 28 de Fevereiro; agora, é de 6,29 dólares. Por conseguinte, a responsabilidade pelos preços elevados dos combustíveis nos Estados Unidos não é dos ataques ucranianos à Rússia: é de Trump. Donald Trump estará a tentar demonstrar que ainda tem capacidade negocial, depois do que aconteceu no Irão? Nem sequer isso. Está a tentar projectar essa percepção junto dos mais incautos, daqueles que, apesar de tudo o que aconteceu, ainda acreditam nele. São cada vez menos. A presidência de Trump está no ponto mais baixo de aprovação. Os últimos dias têm sido marcados por algum desespero e pela degradação do próprio comportamento desta administração. Este acordo, para além de não produzir efeitos, como acabámos de explicar, representa uma traição completa à Ucrânia. Expõe a ausência de uma resposta firme ao agressor, constitui uma traição à Europa e representa também uma traição aos próprios compromissos dos Estados Unidos. A política da administração Trump era exercer pressão sobre a Rússia para pôr fim à guerra, nomeadamente através de sanções ao petróleo e aos combustíveis fósseis russos. Com este acordo, em troca de basicamente nada, está a promover o regresso do petróleo russo aos mercados internacionais. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma isenção temporária das sanções contra a Rússia, permitindo determinadas vendas. Moscovo não conseguiu, até agora, alcançar todos os seus objectivos militares, nomeadamente em Donetsk. Este acordo representa um balão de oxigénio para a Rússia? Poderá a compra de gasóleo russo pelos norte-americanos contribuir para financiar a guerra? Os Estados Unidos estão a financiar a guerra russa contra a Ucrânia. É uma aberração. Aliás, a Rússia está a ajudar o Irão e, com este acordo, os norte-americanos estão a dar à Rússia meios financeiros que lhe permitem continuar a apoiar o Irão. Se levarmos este raciocínio até às últimas consequências, podemos dizer que Trump é tão incompetente que acaba por celebrar um acordo que contribui para financiar uma guerra contra os próprios interesses dos Estados Unidos. Este é o grau de incompetência do Presidente norte-americano. Donald Trump afirmou também que Volodymyr Zelensky já não tem legitimidade para permanecer no poder e que terá de convocar eleições. Entretanto, sabe-se que os deputados ucranianos estão a trabalhar numa lei eleitoral adaptada a um eventual cessar-fogo, de modo a permitir a realização de eleições nestas condições. Volodymyr Zelensky será obrigado a realizar eleições? É saudável e exigível respeitar os mandatos numa democracia. O mandato de Zelensky, que teria terminado em Maio de 2024, uma vez que foi eleito em Maio de 2019, está ultrapassado. Mas, tanto quanto sei, ele não pediu para ser invadido pelo maior país do mundo. E faço uma pergunta: como pode haver eleições na Ucrânia? As pessoas têm de parar para pensar antes de lançarem estes temas. Quando Trump levanta esta questão, revela uma irresponsabilidade tremenda. Como pode haver eleições na Ucrânia quando as cidades ucranianas são atacadas diariamente pela Rússia? Como pode haver eleições quando uma parte significativa da população masculina, entre os 18 e os 40 e muitos anos, está na linha da frente? Como pode haver eleições quando cerca de 20% do território ucraniano está ocupado? É preciso pensar nestas questões antes de exigir eleições nestas circunstâncias. Sempre que Trump lança esta provocação, reforça a ideia de que é, efectivamente, um activo russo. O antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa foi criticado por ter afirmado que Donald Trump “era um activo russo” que o seu comportamento favorecia os interesses russos. E é precisamente isso que estamos a observar nos últimos dias. Zelensky já afirmou que não se opõe à realização de eleições e que estas poderiam ter lugar após um cessar-fogo de 60 dias. Qual foi a reacção do Kremlin? Os russos só garantem um cessar-fogo de um dia. O Kremlin continua, portanto, a responder de forma perversamente provocatória. As dificuldades na luta contra a corrupção poderão manchar a imagem de Volodymyr Zelensky? Penso que não. A Ucrânia tem respondido de forma imediata a estas questões. Quando houve manifestações contra as alterações propostas à lei, ficou demonstrado que a Ucrânia é um país democrático, ao contrário da Rússia. As críticas incidiam sobre a alteração legislativa relativa a duas agências anticorrupção, que passariam a estar sob a alçada de uma Procuradoria dependente do Presidente. Era uma proposta muito discutível do ponto de vista do Estado de direito. Sabemos que a Ucrânia, mesmo antes da guerra, já tinha problemas nesta matéria e continua a enfrentar desafios ao nível da separação de poderes, do Estado de direito e do reforço das instituições. Ainda assim, na minha opinião, está a fazer um trabalho extraordinário: enquanto é invadida pelo maior país do mundo, procura implementar reformas que lhe permitam, um dia, integrar a União Europeia. Os progressos nesse sentido são evidentes. Este acordo poderá, de alguma forma, reforçar o apoio da população ucraniana a Volodymyr Zelensky? Estamos numa fase um pouco contraditória nesse aspecto. Acima de tudo, o povo ucraniano tem demonstrado uma resistência impressionante, muito para além de qualquer antecipação ou previsão feita há quatro anos e meio. E isso é o mais importante. Porquê esta resistência? Não é pelo facto de os ucranianos serem super-homens. São pessoas como nós, mas já conhecem suficientemente bem os russos para perceberem que o pior cenário seria uma submissão à Rússia. Do ponto de vista político, a Ucrânia, enquanto país democrático, tem de fazer as suas escolhas democraticamente. É natural que, quando a guerra terminar, os ucranianos decidam se querem ou não voltar a eleger Zelensky. É possível que ele próprio considere que não faz sentido recandidatar-se. Seja qual for o desfecho, ficará para a História como o Presidente que liderou o país durante a guerra e resistiu ao invasor russo. Olhando para outros momentos da História, percebe-se que esta marca poderá ser determinante para o seu legado. Depois de uma guerra, pode não fazer sentido continuar a governar numa lógica de conflito. Compreendo essa perspectiva, mas cabe aos ucranianos decidir. As sondagens realizadas na Ucrânia apresentam resultados algo contraditórios. Algumas indicam que Volodymyr Zelensky continua a gozar de uma popularidade significativa, mas outras sugerem que uma pequena maioria dos ucranianos considera que não se deveria recandidatar. O que representa este acordo para as negociações que pretendem colocar um ponto final neste conflito e que papel poderá a Europa desempenhar? Mais uma vez, temos de tentar abstrair-nos da espuma dos dias e olhar para a situação com clareza, incluindo para a sua dimensão absurda. Tenho ficado muito impressionado, nas últimas 48 horas, com algumas análises que tenho acompanhado nos Estados Unidos. Há sectores republicanos que começam a concluir, com espanto, que nunca houve na História norte-americana um Presidente que assumisse tão claramente o lado russo contra o lado europeu. Neste momento, isso é muito evidente. Sabemos que há sempre quem esteja disposto a relativizar ou a desculpar Trump, mas torna-se cada vez mais difícil fazê-lo. A política desta administração era a aplicação de sanções à Rússia, mas agora assistimos a um acordo que contraria essa orientação. A política europeia também tem sido marcada pelas sanções contra Moscovo e houve, naturalmente, reacções por parte de líderes europeus, como Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Kaja Kallas, no sentido de reforçar essas medidas. Por muito que se tente disfarçar a situação e afirmar que os Estados Unidos continuam a ser aliados, enquanto Trump estiver na Casa Branca, os norte-americanos não podem ser vistos como aliados fiáveis nesta questão. Esta aproximação à Rússia já se tinha manifestado no âmbito da Assembleia Geral das Nações Unidas, quando os Estados Unidos se recusaram a votar a favor de resoluções que identificavam a Rússia como agressora. Esta aproximação também contribuiu para o regresso de Putin ao G20. Além disso, o Presidente norte-americano recebeu Putin no Alasca com uma passadeira vermelha. Podemos tentar não ver o que está a acontecer, mas os factos estão à vista. Não se trata necessariamente de toda a administração norte-americana, mas do próprio Presidente dos Estados Unidos. E, como bem assinalou o antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, há um ano, Trump é, objectivamente, um activo russo.