
A MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe, de 16 de Outubro a 13 de Dezembro, a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical”, na qual nove artistas contemporâneos dialogam com o pensamento de uma das mais importantes personalidades africanas do século XX. A mostra ilustra a influência, também nas artes, de “um homem africano que pensou o mundo, interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a historiadora Ângela Benoliel Coutinho, uma das comissárias da exposição. A partir desta sexta-feira, 16 de Outubro, até 13 de Dezembro, a MansA (Maison des Mondes Africains), em Paris, acolhe a exposição “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” que coloca em diálogo o pensamento crítico de uma das figuras mais importantes da luta anticolonial e do pensamento humanista, pan-africanista e revolucionário do século XX com a criação artística contemporânea. A exposição é comissariada pela curadora Armelle Dakouo e pela historiadora Ângela Benoliel Coutinho, com quem conversámos e que começou por nos contar que a ideia surgiu há alguns anos num desafio que lançou à curadora angolana Paula Nascimento. “Tratava-se de pensar uma exposição dedicada a Amílcar Cabral. Eu achei que seria interessante tentar conjugar ou tentar iniciar um diálogo mais directo, mais intenso, entre o que se faz na academia relativamente a esta figura histórica e o que se faz nas artes visuais. Há vários artistas que se têm inspirado no trabalho de Cabral, no legado de Cabral”, recorda a historiadora, lembrando que foram “envolvendo várias pessoas e artistas” e acabaram por falar do projecto também a Elisabeth [Liz] Gomis, directora da MansA, jornalista, realizadora e produtora francesa e com origens bissau-guineenses. O resultado junta, em Paris, obras dos artistas Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Sónia Vaz Borges, Yuran Henrique, Hamedine Kane, Sarah Maldoror, Mónica de Miranda e Bento Oliveira, cruzando, assim, o pensamento de Cabral com pintura, cinema documental, fotografia, instalação e desenho. Estes são também artistas associados aos países que constituíram o ADN da luta de Cabral, ou seja, “artistas dos territórios ou das terras que dizem directamente respeito a Cabral, portanto da Guiné, de Cabo Verde, da África dita lusófona”, mas também “artistas portugueses muito engajados desde há anos com a obra de Cabral” e, ainda, “outras artistas pelo mundo fora” igualmente inspirados pelo pensamento cabralista, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho. “Lidamos, na verdade, com um intelectual, um grande intelectual africano que, em conjunto com o povo da Guiné-Bissau, no contexto do movimento político que ele liderou com cabo-verdianos, na verdade, concretizou muitas das suas ideias e deixou outras que parece que interessam ainda a muita gente. Eu diria que, para mim - cada vez mais tenho essa sensação - há vários Cabrais. Nesta exposição, trata-se deste Cabral, um homem africano que pensou o mundo, que interveio nele e cujas acções e ideias ainda interessam muita gente 50 anos depois da sua morte”, resume a também autora do livro “Os dirigentes do PAIGC: Da Fundação à Ruptura 1956-1980”. Por outro lado, a exposição abre novas perspectivas para abordar a sua obra a partir do olhar dos filhos e dos netos das independências. Líder das lutas de libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, pensador da descolonização e da “reafricanização dos espíritos”, estratega militar e político, pensador da cultura como instrumento de libertação, defensor da participação política e cívica das mulheres, são muitas as facetas conhecidas de Amílcar Cabral (1924-1973), mas ainda há muitas por conhecer. “Há um Cabral por descobrir”, acrescenta Ângela Benoliel Coutinho, apontando, por exemplo, para a publicação, este ano, de um livro na África do Sul “que se debruça sobre as reflexões de Cabral em torno da questão ambiental”, com alguns especialistas a considerarem o engenheiro agrónomo como “um pai da agricultura regenerativa”. A exposição é, assim, mais uma etapa na reflexão sobre o vasto legado de Amílcar Cabral, através das obras expostas, mas também da programação paralela com mesas-redondas, filmes e concertos. “Talvez esta exposição seja uma espécie de convite à criação de um fórum internacional daqueles que se interessam pelo legado de Cabral e que estamos a tentar descobrir o que ele pensava e o que ele conseguiu de facto fazer”, espera a historiadora. “Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical” é também um convite para ver, ouvir e participar na experiência cultural da MansA, em Paris, uma instituição que se apresenta como uma “casa de artistas, um ponto de encontro, um centro de recursos e uma incubadora de talentos aberta ao mundo”, ou seja, “um laboratório vivo em que se cruzam artistas, pensadores, investigadores e activistas, para fomentar novas formas de criação e de análise crítica”. Oiça a entrevista no programa Convidada desta quarta-feira, 14 de Outubro de 2026.