
A violência que marcou a mobilização de sábado não explica, por si só, a dimensão do descontentamento em França. Para Éric Monteiro, docente de Ciências Políticas na Universidade de La Rochelle, o país chega ao fim da presidência de Emmanuel Macron com problemas sociais que atravessam várias gerações e sectores. O diagnóstico vai além da contestação nas ruas: "A França está em crise de regime, sem dúvida". O docente universitário, Éric Monteiro, vê na mobilização deste sábado, 17 de Outubro, a expressão de um mal-estar que não nasceu agora e que ultrapassa o movimento estudantil. "Estamos numa crise social já há muitos anos", afirma, lembrando que o primeiro mandato de Emmanuel Macron ficou marcado pelos "coletes amarelos" e que a presidência se aproxima do fim novamente sob forte contestação. "Começámos o primeiro mandato com um movimento social que durou muitas semanas" e chegamos ao final de quase dez anos de presidência com "grandes movimentos sociais" e uma situação que, na sua análise, pouco mudou. O regresso dos "coletes amarelos" às ruas é, para o docente, um dos sinais dessa continuidade. O movimento, que perdeu força depois de 2019, voltou agora a manifestar-se, de forma pacífica, em solidariedade com os estudantes e contra o aumento do custo de vida. Há, contudo, uma diferença em relação a 2018, nessa altura, a contestação ao preço dos combustíveis estava directamente ligada às escolhas fiscais do Governo, hoje, lembra Éric Monteiro, os preços são também condicionados pela situação geopolítica internacional. "Os jovens hoje manifestam por desespero", afirma. A escola é apenas uma parte do problema, à falta de professores e de meios juntam-se as dificuldades de entrada no mercado de trabalho. Éric Monteiro dá o exemplo de uma antiga estudante, com cinco anos de formação superior, recusada para um lugar técnico por ter qualificações a mais para uma função cujo salário não correspondia ao seu nível de estudos. "As saídas profissionais não correspondem ao nível de estudos que os jovens atingiram", resume. É essa ausência de perspectivas que, segundo o académico, distingue a actual contestação de anteriores grandes movimentos estudantis franceses. Em 1986, os jovens contestavam uma reforma concreta do acesso à universidade, em 2006, mobilizaram-se contra o contrato de primeiro emprego. "Hoje não há lei nenhuma em particular", sublinha. O que existe são "condições de vida que se deterioraram completamente" e "a falta de esperança sobre a possibilidade de ter um emprego no fim dos estudos". A explosão das rendas, as longas deslocações até às universidades, o preço dos combustíveis e a escassez de transportes ao fim do dia alimentam, diz, "um mal-estar generalizado". Éric Monteiro considera que a profissão docente perdeu atractividade à medida que os salários foram perdendo valor relativo. "São muitos anos de estudo, um concurso relativamente selectivo" para uma remuneração pouco superior ao salário mínimo, observa. "A profissão não atrai mais ninguém." A falta de candidatos junta-se à redução do número de professores substitutos, agravando um problema que está hoje no centro das reivindicações de muitos alunos do ensino secundário. Mas o docente insiste que seria redutor explicar a actual contestação apenas pela escola. O descontentamento atravessa o poder de compra, a habitação, o emprego e os serviços públicos, ao mesmo tempo que a sucessão de reformas e de ministros acentua a sensação de falta de rumo. "Há uma incoerência total, não há uma linha contínua, legível, que permita oferecer visibilidade aos jovens ou aos professores para saber onde vão", afirma. Para Éric Monteiro, a França sofre ainda com a desvalorização histórica da formação profissional, ao contrário de países como a Alemanha, onde percursos técnicos mais curtos continuam a oferecer saídas profissionais valorizadas. A violência registada no sábado ameaça tornar menos audíveis essas reivindicações. Éric Monteiro distingue os cortejos pacíficos, com estudantes, professores, sindicatos e pais, dos grupos responsáveis por pilhagens e ataques a edifícios públicos. Na Universidade de La Rochelle, conta, os próprios estudantes procuraram impedir a entrada de elementos exteriores. "Não são estudantes", afirma sobre muitos dos autores dos actos violentos. Entre eles, identifica delinquentes que aproveitaram a confusão para roubar e grupos radicais que procuram confrontar directamente as instituições. É essa sobreposição entre crise social, violência e aproveitamento político que torna o momento delicado a poucos meses das presidenciais. Éric Monteiro considera "saudável" que os jovens se interessem pelo futuro e entende que os candidatos deveriam escutar as reivindicações que emergem das ruas. O perigo, sublinha, é que os confrontos acabem por ocultar as razões que levaram centenas de milhares de franceses a manifestarem-se e abram espaço à recuperação política da instabilidade. "A França está em crise de regime, sem dúvida", afirma Éric Monteiro. A Quinta República foi concebida em torno de um poder presidencial forte e de maiorias parlamentares relativamente estáveis, hoje, o Parlamento está fragmentado em vários blocos e nenhuma eleição garante uma maioria capaz de governar. As presidenciais de 2027 podem mudar os protagonistas, mas não necessariamente resolver essa fragmentação. Para o docente universitário, essa combinação entre mal-estar social, perda de confiança e dificuldade em formar maiorias políticas poderá prolongar a instabilidade muito para além do actual ciclo eleitoral.