
O Governo angolano oficializou, neste mês de Outubro, a candidatura da embaixadora Josefa Sacko ao cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A candidatura de Angola assenta na experiência profissional e institucional da candidata, que exerceu funções de secretária-geral da Organização Africana do Café e de comissária da União Africana para a Agricultura, Desenvolvimento Rural, Economia Azul e Ambiente Sustentável. Josefa Sacko, actualmente embaixadora de Angola em Itália, defende uma visão centrada na modernização dos sistemas de produção e no reforço da segurança alimentar. Angola defende uma reforma e uma descentralização da FAO. Em que consiste a reforma da FAO? Quase todas as agências das Nações Unidas estão num processo de reforma. A reforma visa melhorar os serviços da nossa instituição, nomeadamente a prestação de serviços e os dados estatísticos, bem como olhar com atenção para a área científica. É nesta área que estamos a tentar fazer a reforma. O foco desta reforma passa pela descentralização e pela capacitação dos escritórios regionais, sub-regionais e nacionais da FAO. Temos de aproveitar todo o conhecimento e potencial de que a organização dispõe. Temos de apresentar resultados para erradicar a fome e a má nutrição a nível global. Estamos a analisar problemas globais e dispomos de evidências através dos relatórios sobre o estado da segurança alimentar. Percebemos que temos de fazer mais trabalho para que todos os cidadãos tenham acesso à alimentação. A segurança alimentar e o aumento da produtividade são outros pontos da proposta angolana à direcção da FAO. Qual é a melhor solução para erradicar a fome? A melhor solução para erradicar a fome é dar prioridade a este sector ao nível do Executivo e investir na agricultura e no desenvolvimento rural, de forma a atrair os jovens para o sector. Trata-se de um grande projecto integrado. Temos também de perceber como podemos atingir as metas, uma vez que só temos três anos até 2030. Como vamos conseguir lá chegar? Temos os programas e a estratégia. O desafio é converter o conhecimento e os programas em acções concretas que tenham impacto nas populações e nos nossos camponeses, melhorando as suas condições de vida. Sabemos que a alimentação é um direito universal. Olhando para o continente africano, que é o mais afectado pela insegurança alimentar, não estamos a apresentar novos modelos. Queremos promover um sistema agroalimentar resiliente. Angola quer também apostar na valorização do trabalho das mulheres e dos jovens. Esta valorização passa pelo acesso à terra, à formação e a oportunidades de emprego. Como pretende concretizá-la? Queremos deixar os machados e as enxadas nos museus. Estamos a falar de mecanização para facilitar o trabalho das mulheres. Sabemos que as mulheres têm trabalhos muito penosos no campo e, por isso, queremos evitar este tipo de agricultura tradicional, que representa um grande esforço para elas. Como podemos, então, promover o empoderamento das mulheres? Estamos a falar de mecanização, acesso a títulos de propriedade da terra, acesso à tecnologia e também acesso ao financiamento, porque, normalmente, é difícil conseguirem crédito junto dos bancos. São este tipo de facilidades e apoios que os Estados devem proporcionar às mulheres, para que possam reduzir o trabalho árduo que realizam no campo. Queremos também atrair a juventude através de modelos como o agronegócio. São estas modernizações que queremos promover ao nível do sistema agroalimentar mundial. Num mundo em que a inteligência artificial ocupa cada vez mais um lugar de destaque, de que forma podem as novas tecnologias e a ciência trabalhar a favor da agricultura e da economia azul? Temos de aproveitar estas novas inovações, mas também de compreender como funciona a inteligência artificial e quais são os seus benefícios para o sector agrário. Temos de regular a forma como a informação e os dados são utilizados, porque tudo isso é muito importante. No entanto, não queremos depender apenas da inteligência artificial e deixar o homem desempregado. Queremos criar modelos que se adaptem melhor ao sector produtivo e facilitem o acesso ao mercado através destas inovações. Queremos utilizar a inovação, mas de forma devidamente regulada, para que não prejudique os nossos camponeses. As alterações climáticas são hoje uma das maiores ameaças à agricultura e à segurança alimentar, provocando perdas de produtividade e instabilidade nos mercados globais. Que estratégias, segundo Angola, devem ser implementadas para que os produtores possam lutar contra este flagelo? A resposta está na resiliência. A nossa resiliência passa pela adaptação do ambiente em que estamos a cultivar, para que a produção não seja afectada pelos impactos das alterações climáticas. Precisamos de sementes melhoradas, capazes de resistir aos períodos de seca e às cheias. É este tipo de resiliência que queremos promover. Portanto, a solução está na resiliência. Temos de garantir resiliência em toda a cadeia de valor. África tem vindo a pedir uma maior voz nas Nações Unidas. Com uma angolana na direcção da FAO, o continente terá mais espaço para definir as políticas globais de alimentação e agricultura? Tenho um perfil marcadamente agrícola. Sou engenheira agrónoma e dediquei toda a minha vida a esta área. Durante três décadas, trabalhei sempre neste sector, nomeadamente na área do café e no meu país, no campo. Trabalhei também como comissária da União Africana para a Agricultura, a Economia Azul, o Desenvolvimento Rural e as questões relacionadas com as alterações climáticas. A minha eleição poderá também representar uma mais-valia para analisar as questões que estão a afectar a segurança alimentar, principalmente no Sul Global. Mesmo nos países desenvolvidos existem problemas. Queremos estabelecer parcerias com esses países para que nos possam ajudar e para trabalharmos todos juntos, apoiando os mais necessitados. Que conhecimento pode África levar à FAO? Quais são as vantagens? África é membro da FAO. Já tivemos um senegalês à frente da organização. Portanto, não há razão para considerar que não temos capacidade. A Europa também tem os seus representantes. Nós temos quadros e inteligência. Vamos, por isso, transmitir também as nossas experiências à FAO. Queremos concentrar-nos no mandato que foi atribuído à organização. Não queremos inventar a roda. Ela já existe. O importante é implementar e tornar as coisas viáveis. Porque continuamos a ter problemas de insegurança alimentar se já conhecemos os problemas? Com a minha liderança, vamos reforçar a implementação destes programas, em vez de continuarmos apenas a elaborar relatórios e a concentrar-nos em estudos. Os estudos já existem. Temos de passar à operacionalização das ferramentas disponíveis na FAO, que precisam de ser implementadas. Isso implica mobilizar recursos financeiros e investimento para que possamos ir muito mais longe. A sua presença na FAO poderá também ajudar a erradicar a fome no continente africano e a combater este flagelo? A minha batalha é trabalhar para erradicar a fome, em coordenação com todos, com transparência e com responsabilidade na aplicação de cada investimento. Temos de garantir que os recursos são respeitados e aplicados nos projectos que negociámos com os bancos e com os parceiros. Esta é a minha visão. Em que fase se encontra a sua candidatura? Que apoios tem recebido? As candidaturas ainda não estão abertas, mas temos este projecto. Quando se fala de uma posição global tão importante como a direcção-geral da FAO, existe um processo de preparação da candidatura de Angola. O primeiro passo que demos foi submeter a nossa intenção ao Comité de Candidaturas Internacionais da União Africana. O Conselho Executivo da União Africana endossou a nossa candidatura, que é a única candidatura africana. Neste processo, avançámos também com a SADC para criar o nosso bloco na SADC. Apresentámos ainda a candidatura na CPLP, onde também tomaram nota da nossa intenção. Neste momento, estou também a solicitar o apoio de outras regiões. Para além de Angola, a Irlanda, a Espanha, a Itália, a Turquia e a Argentina deverão também apresentar candidaturas à direcção-geral da FAO. A eleição do próximo director-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura deverá ocorrer entre 26 de Junho e 2 de Julho de 2027, durante a 45.ª sessão da Conferência da FAO, em Roma.