
Homilia de todos os santos 2023 Hoje, celebramos a solenidade de Todos os Santos. Fazer memória dos santos é unir a Igreja celeste, ou seja, a Jerusalém eterna, com a Igreja terrestre e cultivar o desejo da nossa santidade. À primeira vista, a santidade parece algo muito difícil, distante da nossa fragilidade e protegida em um grau de intocabilidade. Ao mesmo tempo, o mundo atual parece perder o interesse pelos santos reais e os tem trocado por ideais fictícios que não nos comprometem e transformam a realidade em ilusão. Como ser santo hoje em meio às nossas atividades cotidianas? A primeira resposta vem da Carta de São João. Ele nos recorda que somos, desde já, filhos de Deus, mas ainda não se revelou em nós a plenitude de nossa essência. Irmãos, nossa humanidade só é plena em Jesus. É no hoje da nossa história, em meio às nossas atividades cotidianas, que somos convidados a ter atitudes de filhos e a crescer na esperança de estarmos plenamente em Jesus no céu. O apóstolo afirma que essa atitude é um caminho de purificação: alimentar o desejo da eternidade não é para pessoas perfeitas e acabadas, mas para nós pecadores; quanto mais crescemos neste desejo, mais a graça vai operando aquilo de que necessitamos e nos tornando semelhantes ao Senhor. Depois, precisamos lembrar que a santidade não corresponde tanto às nossas obras. Se fosse apenas um esforço pessoal, poderíamos cair no orgulho. Ela é um abandono confiante na graça salvífica de Cristo. Como descreve o livro do Apocalipse: os santos “são aqueles que vêm da grande tribulação e que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. A humildade é um caminho fundamental para a santidade. Não somos nós que nos salvamos, mas fomos salvos pelo sangue derramado de Cristo. Os santos que já estão no céu adoram, por toda eternidade, o sangue do nosso Redentor porque aprenderam a adorá-lo aqui na Eucaristia terrena. Na Eucaristia, a fé no corpo e no sangue que nos salva começa a operar a santidade em nós. Por fim, a santidade é um caminho de alegria, felicidade e bem-aventurança. A Jerusalém celeste é o lugar do louvor que não cessa, porque os santos contemplam o motivo de sua alegria. O santo é aquele que entendeu que o segredo do existir está em ser pobre em espírito, aceitar ser consolado, ser manso, ser promotor da justiça e da paz, ser misericordioso, ser puro de coração e compreender que a consequência disso é ser perseguido como o Senhor. As bem-aventuranças podem não ser promessas de riquezas neste mundo, mas são os únicos caminhos para plena liberdade. Jesus, ao ensiná-las sobre a montanha, lugar bíblico da manifestação de Deus, nos ajuda a compreender que ser bem-aventurado não é um caminho intelectual, mas é uma subida, um processo de sair de nós mesmos para direcionar o centro de nossa existência para as coisas do alto. Ele é o bem-aventurado que devemos alcançar. Se começarmos a subida hoje, um dia o teremos por toda eternidade com nossos irmãos e irmãs, os santos.