
A procura pelo agente principal dos fenômenos sociais (a sociedade ou o indivíduo) é, na verdade, o movimento da ciência sociológica em busca de seu objeto de estudo. Toda ciência se ocupa de realidades e, portanto, necessita de um objeto próprio e independente para descrever e interpretar (nas Ciências da Natureza, por exemplo, a Física tem por objeto a matéria e os fenômenos relativos a ela no tempo e no espaço, enquanto a Biologia estuda a vida e os organismos vivos). Esse princípio de objetividade na Sociologia foi estabelecido e sistematizado em um primeiro momento pelo sociólogo francês Émile Durkheim. Ele reconheceu na sociedade um conjunto de fenômenos que poderiam ser compreendidos separadamente das consciências dos indivíduos nos quais se manifestavam e por meio dos quais eram representados. Durkheim chamou esses fenômenos de fatos sociais. Os fatos sociais são formas de agir cuja manifestação coletiva constitui aquilo que entendemos como sociedade, a qual surge, assim, como um dado autônomo que pode ser descrito, interpretado e explicado pela ciência com base em uma metodologia própria: o método sociológico. Por fatos sociais entende-se o conjunto de normas e regras coletivas que orientam e condicionam a ação individual. Os fatos sociais são identificados por três características principais: são exteriores aos indivíduos (existem independentemente de sua vontade ou reflexão), coercitivos (impõem penalidades àqueles que não cumprem suas normas) e gerais (estão presentes no conjunto de dada sociedade). Para entendermos melhor esse conceito, podemos pensar no exemplo das leis, que são normas que, uma vez instauradas, passam a valer independentemente da vontade do indivíduo. Todos os membros de uma coletividade têm de cumpri-las, mesmo que possuam opinião pessoal desfavorável (por isso elas lhes são exteriores). O descumprimento da lei prevê uma punição ao transgressor (por isso são coercitivas). Ao mesmo tempo, as leis servem de orientação para a conduta de toda a população (por isso são gerais). Podemos, assim, reconhecer muitos fatos sociais em nossa vida cotidiana. A maneira como agimos nos diferentes ambientes (em casa, na escola, na rua), o modo como falamos (nosso idioma, o sotaque, as gírias, as formalidades), a forma como nos vestimos (calças compridas, bermuda, saia, combinação de cores e acessórios), a intimidade com que nos relacionamos com as outras pessoas, por exemplo, podem ser observados de forma desprendida da vontade individual (o fato de sentar-se em fileiras na sala de aula, as gírias próprias dos jovens durante as conversas no recreio, o uniforme escolar etc.). Esses comportamentos, ainda que pareçam ou sejam sentidos como escolhas individuais, são estabelecidos socialmente. Essa força exterior, que se impõe a todos os indivíduos e permite descrevê-los mediante generalizações observadas em suas características externas (os jovens, as mulheres, os moradores da cidade, os trabalhadores do campo, os professores, os técnicos, os militares etc.), é, segundo Durkheim, o próprio objeto da Sociologia. Nesse sentido, ele entende que a sociedade é anterior aos indivíduos, pois os comportamentos gerais e as dinâmicas sociais existem antes deles e os conformam para além de suas características singulares. As relações sociais como objeto de estudo da Sociologia podem ser compreendidas com base na ideia de que o todo (a sociedade) é mais complexo que a soma de suas partes (os indivíduos). É possível entender essa proposição tomando como exemplo qualquer máquina complexa. Assim, em uma caixa encontramos todas as peças de um automóvel, mas cada peça separadamente não constitui um carro. Para que de fato exista um carro (isto é, para que ele funcione e seja reconhecido por sua forma característica e função estabelecida), é necessário que essas peças sejam montadas da maneira planejada, a fim de que cada uma contribua para a existência do todo; uma peça mal colocada comprometeria o objetivo final, e então não haver