
Nas últimas semanas, uma onda de protestos percorreu a Europa. Em França, os estudantes saíram à rua contra a degradação do ensino e o aumento do custo de vida. Na Bélgica, em Itália e na Grécia, também eclodiram protestos. Em Portugal, as acampadas pelo direito à habitação inspiraram-se na que tive lugar em Madrid. De diferentes formas, estas mobilizações dão voz a um descontentamento crescente perante a precariedade e as dificuldades em garantir condições de vida dignas. Nas últimas semanas, uma onda de manifestações percorreu a Europa. Em França, em meados de Setembro, estudantes do ensino secundário começaram a bloquear as suas escolas para exigir melhores condições de ensino. Os protestos alastraram a todo o país, e as mobilizações estudantis juntaram-se à luta contra o custo de vida. Em Itália, a juventude mobilizou-se sob o grito “Come la Francia”. Na Bélgica, os estudantes também saíram à rua a pedir mais meios para a educação. Na Grécia, foi a vez dos professores e dos funcionários públicos. Em Portugal, as acampadas pelo direito à habitação começaram no Porto, no dia 10 de Outubro, e alargaram-se a Lisboa. Inspiram-se na ocupação da Puerta del Sol, em Madrid, que surgiu na sequência do despejo de uma madrilena de 87 anos, Maricarmen Abascal, e que reclama igualmente o acesso à habitação. Esta vaga de protestos surge depois de um ano em que os jovens saíram à rua contra os seus governos em países como Marrocos, Nepal, Peru, Indonésia e Madagáscar. Embora os contextos e as reivindicações sejam diferentes, a socióloga Cristina Nunes, da Universidade Lusófona, explica-nos o efeito de contágio entre todos estes movimentos. Cristina Nunes: "Hoje em dia, a juventude atravessa problemas semelhantes em diferentes países do mundo. Já o ano passado, também tivemos uma onda bastante grande de protestos em países não europeus. E, portanto, eu penso que há uma onda de contágio, porque em diferentes países do mundo, de facto, jovens vêm sem condições de trabalho, sem perspectivas de futuro. Em Portugal, e também nalguns países da Europa, embora, claro que depois os problemas variam um pouco de país para país, vemos, que, hoje em dia o direito à habitação e esta reivindicação por ter uma habitação digna, independente dos pais, também, é uma das reivindicações mais comuns entre os jovens. Mas este é um problema que não diz respeito só aos jovens, porque também vimos pessoas de outras gerações que atravessam precisamente também este problema da habitação. Mas sim, podemos falar de uma onda de contágio, até porque hoje em dia, também devido ao desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação, estas ondas de protesto mimetizam-se muito mais facilmente do que antigamente. Se bem que antigamente já se propagavam também, começavam num país e depois também se estendia a outros países. Mas hoje em dia, claro que de facto, esta onda de contágio é mais fácil e mais rápida." Vemos que muitos destes movimentos começaram, e são sustentados, pela juventude. Em França, por exemplo, foi a geração Z, nascida entre 1997 e 2012, que lançou os protestos; em Portugal, em média, os jovens só saem de casa dos pais perto dos 29 anos; na Índia, o “movimento das baratas” surgiu depois de o presidente do Supremo Tribunal ter qualificado os jovens desempregados de “parasitas” e “baratas”. Porque está a juventude em revolta? Cristina Nunes: "Esta juventude está em revolta porque, de facto, é uma juventude bastante qualificada, sobretudo nos países da Europa. Hoje, a maior parte dos jovens têm uma educação superior e, depois de concluírem os seus estudos, vêem que de facto não tem futuro ou encontram empregos precários. Por exemplo, em Portugal, que não ganham mais de 1.000 €, isso obriga uma parte também da juventude a ter que emigrar. Portanto, vêem que muito provavelmente não vão viver com as mesmas condições que têm os seus pais ou os seus avós, apesar de serem mais qualificados e escolarizados, irão viver, portanto, em situações piores. E eu penso que essa é a principal resposta dos jovens, porque chega a uma determinada fase da vida, ou seja, quando chegam ao início da vida adulta, depois de concluir em toda a sua escolaridade e de quererem ingressar no mercado de trabalho, vêem que de facto vão ficar na mesma e não conseguem sair de casa dos pais. Isto implica também tem repercussões em muitas outras esferas da vida. Se uma pessoa se não tem uma casa, muito dificilmente vai conseguir construir uma conjugalidade ou construir uma família. É o sonho de muitos jovens e de muita gente a partir de uma determinada idade. E isto depois afecta todo um conjunto de outras esferas da vida dos jovens e das pessoas. Mas se nós pensarmos aqui em 2011, 2012, estas já eram algumas das reivindicações dos jovens aqui em Portugal. E também quando emergiram os protestos anti-austeridade, sobretudo no sul da Europa, e não tanto focadas no direito à habitação porque este problema, de facto, agudizou-se nos últimos anos, mas era já uma reivindicação dos jovens também não terem condições de vida dignas. Se conseguirem autonomizar aos pais e, portanto, não conseguirem também construir uma vida independente. Têm condições de trabalho precárias, instáveis. Se pensarmos mais ou menos há dez ou quinze anos atrás, já era um problema comum, mas agudizou-se de facto, nos últimos anos, também devido a este problema da habitação. E portanto, eu penso que a revolta dos jovens tem a ver sobretudo com isso, tanto de verem que, de facto não têm grandes perspectivas de futuro. Depois também há todo um conjunto de características que são inerentes à juventude, mais do que a outras gerações, a questão da radicalidade, do sonho, da utopia, também faz parte da categoria de se ser jovem ou da juventude. Essas características de reivindicação, de protesto, de uma certa radicalidade." Nos protestos em França, o que começou como uma reivindicação em torno do estado das escolas secundárias estendeu-se às universidades, ao custo de vida, à oposição à extrema-direita, à exigência de acção perante a crise climática e até à causa palestiniana. Existe hoje uma convergência de lutas? Cristina Nunes: "Sim, podemos falar numa convergência de lutas, mas eu penso que em cada país há um foco central. Mas essa convergência de lutas às vezes também leva a que haja divisões entre os movimento, e sempre aconteceu. Por exemplo, em relação à causa palestina, eu lembro-me que também aqui, já quando foi os protestos anti-austeridade, também a causa da Palestina estava presente e por vezes havia divisões dentro dos movimentos porque uns queriam dar mais destaque a essa causa e outros diziam que estavam a fugir ao foco da luta, naquela altura era lutar contra a austeridade e contra a troika. Eu penso que muito provavelmente isso também se deve passar hoje em dia. Quando olhamos para estes movimentos assim de uma forma superficial, parece nos que se calhar é uma massa homogênea de pessoas que têm todas as mesmas reivindicações. Mas depois fomos estudar aprofundadamente, vemos que há sempre diferentes facções ou diferentes grupos, que têm posições político-ideológicas diferentes e, por vezes, isso gera divisões internas. A causa da Palestina até pode ser comum a todos os manifestantes que participam mais activamente nas manifestações, os activistas, que são aqueles que organizam, preparam as manifestações, as pessoas que estão, por exemplo, agora diariamente acampada, pode ser uma causa comum a todos." Qual é o papel das redes sociais nestas mobilizações? Cristina Nunes: "O papel das redes sociais é fundamental, para a propagação da informação e das manifestações. Hoje em dia, é isso que leva que uma manifestação seja organizada em Paris, e que, passado umas horas ou uns minutos, esteja a ser organizada pela mesma organização em Lisboa, ou em outras partes do mundo sob o mesmo mote. Ou seja, a informação propaga se mais facilmente. Também os activistas entre si têm um contacto mais permanente, mais frequente entre si, e activistas de diferentes partes do mundo e, às vezes, também de diferentes pontos do país. Isso faz com que as manifestações propagam-se muito mais facilmente. A organização é muito mais simples do que era antigamente. Agora, se é mais sólida? Eu não sei. Mas, de facto, tem um papel fundamental na propagação da informação e até na adesão de pessoas que normalmente podem não participar tanto em manifestações ou em protestos. Portanto, hoje em dia a formação está muito mais acessível e a comunicação entre as pessoas é muito mais simples, rápida e fácil." Penso também nos casos de alegadas violências policiais que têm circulado nas redes sociais. Qual é o efeito da propagação destas imagens na mobilização? Como é que a repressão e a criminalização dos protestos afectam a sua evolução? Cristina Nunes: "Ah, pois também tem esse efeito. As pessoas verem episódios de violência ou de alegada violência policial, de não gostarem, de se solidarizarem com a causa. Mas também temos outra questão nas redes sociais, que é o problema das fake news. Muitas vezes, as pessoas não verificam a informação que circula nas redes sociais. Por vezes podem estar a aderir a um evento ou a uma situação de forma falsa, digamos assim. E muitas vezes as imagens que circulam nas redes sociais apelam precisamente às emoções e aos sentimentos e, têm esse efeito de pôr a nu certos eventos ou certas situações que se passaram. Mas há também sempre o problema da verificação da informação e das fake news, que nem toda a gente tem esse cuidado." Existe o risco de estes movimentos serem apropriados por forças políticas? Penso nas imagens de pilhagens em França, que podem favorecer a extrema-direita, e na esquerda radical, acusada de instrumentalizar estes jovens. Cristina Nunes: "Há sempre uma tentativa de os dos partidos políticos se aproximarem ou se distanciarem destes movimentos. Falamos, por exemplo, destes movimentos da habitação, mais ligados a causas materialistas, normalmente são mais ligados à esquerda política e há sempre uma tentativa dos partidos políticos de esquerda de se aproximarem destes movimentos e de haver uma confluência entre militantes e activistas. Aqui em Portugal é muito comum. E por outro lado, de serem vistos de uma forma negativa pelos partidos mais à direita radical. Há sempre uma tentativa de apropriação, e podemos dizer que, às vezes, de uma certa instrumentalização. Isto também afasta algumas pessoas de participarem nos movimentos sociais porque chegam e vêm as forças políticas, que tentam exercer um certo controlo e poder, e afastam-se, porque não se revêem nas direcções que os movimentos sociais e os protestos estão a tomar. Mas eu digo que essa "ligação", essa "aproximação" dos partidos face aos movimentos é quase que natural, digamos assim." Se calhar será um pouco de futurologia, mas que cenários antevê para os próximos meses? Estes movimentos podem manter-se, transformar-se em força eleitoral ou desvanecer-se? Cristina Nunes: "Os sociólogos não fazem futurologia (risos), explicam aquilo que está a acontecer, podem pensar analiticamente nalgumas tendências. De facto, face aos movimentos sociais, é sempre um bocadinho imprevisível nós dizermos o que é que vai acontecer, porque os movimentos sociais não são organizações formais, são protestos que acontecem num determinado período de tempo e que nascem, crescem e morrem e depois vêm outros. Passado algum tempo, é difícil de dizer o que é que vai acontecer nos próximos meses, mas eu penso que esta juventude não vai encontrar ou os governantes não vão encontrar tão cedo as soluções que satisfaçam às suas reivindicações. E, portanto, eu penso que a curto e médio prazo estas manifestações vão continuar, e se calhar até se vão propagar por mais países. Como nós vimos o ano passado em muitos países não europeus, que aqui não se falou muito, aconteceram grandes ondas de contestação. Agora estamos a ver na Europa, mas, por exemplo, nos Estados Unidos e no Canadá, não de forma tão aguda, os jovens têm os mesmos problemas do que os jovens europeus, também têm dificuldade em sair de casa, encontrar a habitação. Eu penso que muito provavelmente nos próximos meses vamos assistir a ondas de protestos maiores. Agora, quanto tempo é que vão demorar, ou quando é que vão acabar? Isso é mais difícil de responder, até porque os ganhos políticos dos movimentos, deste ou dos movimentos sociais (em geral), só se conseguem ver à posteriori, muitas vezes quando essas ondas de protestos já terminaram. Mas eu penso que a questão da habitação era de facto uma discussão que já estava em cima da mesa, em termos de políticas públicas e de políticas sociais. Mas com estes movimentos de protesto em Portugal, a discussão tornou-se muito mais visível e mediática, constante em todos os meios de comunicação social nos últimos dias. Eu penso que pelo menos já tiveram esse ganho, digamos assim, de trazer a questão da habitação ainda mais para a discussão pública e política, mais do que aquilo que já se estava a discutir."