
Este domingo, 25 de Outubro, os brasileiros vão às urnas para escolher entre Lula da Silva, que procura um quarto mandato presidencial, e o senador Flávio Bolsonaro, filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, num clima de forte polarização. O resultado poderá ter repercussões que vão muito além das fronteiras do país, influenciando as relações Brasil com os Estados Unidos, a China e a União Europeia, e o futuro de uma das maiores economias mundiais, rica em recursos naturais estratégicos. Este domingo, 25 de Outubro, os brasileiros vão escolher o seu próximo Presidente. A escolha é entre o Presidente cessante, Luiz Inácio Lula da Silva, que quer um quarto mandato e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado, após as eleições presidenciais de 2022. Os resultados da primeira volta revelaram uma forte polarização: o senador ficou em primeiro lugar, com 47% dos votos, e o actual presidente em segundo, com 45%. As sondagens mais recentes apontam para um empate técnico, com os dois candidatos separados por apenas um ponto percentual. Todo o mundo tem os olhos postos neste sufrágio. O Brasil é a segunda maior democracia do continente americano, a seguir aos Estados Unidos, e uma das maiores economias do mundo. Os seus recursos naturais, nomeadamente os materiais críticos, de que o Brasil tem a segunda maior reserva, são essenciais para a tecnologia, a defesa e a transição energética. Do ponto de vista geopolítico, estas eleições podem ser vistas como uma escolha entre o multilateralismo e a proximidade com a China e a União Europeia, que Lula da Silva representa, ou uma maior aproximação aos Estados Unidos e ao Presidente Donald Trump. Monica de Bolle, economista, professora na Universidade de Georgetown, em Washington D.C., e senior fellow do Peterson Institute for International Economics, explica o que está em jogo no sufrágio de domingo. Monica de Bolle: "Em primeiro lugar, está em jogo a própria institucionalidade do Brasil, porque o candidato Flávio Bolsonaro já falou em alterar a Constituição e fazer mudanças na Suprema Corte e uma série de outras alterações institucionais que podem ser bem problemáticas para a democracia brasileira. Então, essa é uma grande coisa que está em jogo. A segunda grande coisa que está em jogo é a própria economia, porque até aqui essa campanha tem sido uma campanha especialmente peculiar. Porque, de um modo geral, as medidas econômicas que o Brasil precisa e as discussões sobre economia que geralmente dominam campanhas eleitorais. Desta vez não foi assim, não houve qualquer discussão mais ampla e mais aprofundada sobre a economia. No primeiro turno, isso certamente não aconteceu. E agora, na reta final do segundo turno, começaram a aparecer algumas propostas, sobretudo do candidato Flávio Bolsonaro, já que o Presidente Lula, já se sabe mais ou menos o que ele pretende fazer. Mas o candidato Flávio Bolsonaro não, e nos últimos dias houve um debate, o primeiro debate presidencial no último domingo e desde então, dá uma certa confusão para tentar entender o que precisamente eles estão propondo fazer no plano da economia. Mas até aqui, o que surgiu nos últimos dias da campanha do senador Flávio Bolsonaro para a economia parece bastante irresponsável, porque o Brasil, nesse momento, está com uma dívida muito alta e as propostas do senador Flávio Bolsonaro são bastante populistas. Assim, envolvem gastos que o Brasil não tem como sustentar. Ele está falando em fazer um ajuste fiscal, mas esse ajuste fiscal não tem nenhum detalhamento. Então fica difícil de saber precisamente o que eles estão pretendendo fazer. Então, de um modo geral, a discussão econômica está muito ruim. Do lado de Lula também não há grandes propostas. E também existe um certo populismo e uma campanha repleta de demagogia para tudo que é lado. E muitas coisas estão em jogo porque o Brasil está nessa situação complicada, tanto do ponto de vista doméstico quanto do ponto de vista externo. Lula e Flávio Bolsonaro representam propostas muito distintas em relação à política externa. No caso do Lula, seria a continuação de uma política externa que prioriza esse pragmatismo que o Brasil tem nas suas relações internacionais: uma espécie de multilateralismo pragmático, sendo que o Brasil engaja com todos os seus parceiros e não dá preferência a ninguém. Mas o Flávio Bolsonaro claramente defende um alinhamento mais forte com os Estados Unidos, dada a proximidade que existe entre a família e o governo Trump e a própria conexão que já existe entre membros da equipe do Flávio Bolsonaro e membros do, enfim, do em torno de Donald Trump aqui nos Estados Unidos. Eu diria que são quase dois Brasis distintos: o Brasil governado por Flávio Bolsonaro vai ser completamente diferente de um Brasil governado pelo presidente Lula." Está todo o mundo de olhos postos nas eleições do Brasil. Como explicar este interesse? Monica de Bolle: "Eu acho que o interesse grande à volta dessas eleições são essencialmente três coisas. A primeira delas é que o Brasil é a segunda maior democracia das Américas, os Estados Unidos é a maior. Então tem claramente uma preocupação já pelo tamanho do país, é uma economia muito grande. Então é uma economia que oferece muitas oportunidades para investidores estrangeiros e é um país que está cheio de recursos naturais que todo mundo quer. O Brasil tem muitas reservas de minerais críticos, tem o segundo maior depósito do mundo de terras raras, é o principal exportador de nióbio do mundo. O Brasil produz e exporta 90% do nióbio global, fundamental para a indústria de defesa, para aviões, para automóveis, é de facto um minério estratégico. E os minerais críticos e as terras raras, que não precisa nem falar, não é? Isso aí está sendo utilizado para uma porção de coisas, inclusive para a própria , que para os outros parceiros do Brasil, sobretudo países europeus, sobretudo a União Europeia, com um alinhamento maior do Brasil com os Estados Unidos, a União Europeia fica um tanto sem espaço no mercado brasileiro. Ao contrário do que quer o Lula, ele pretende que o Brasil continue fazendo uma diversificação de mercados e tudo mais, justamente para não ficar tão espremido entre Estados Unidos e China, que é o que acontece. O que certamente aconteceria, imagino, num governo do Bolsonaro. Então, tem muitas coisas em jogo: tem a democracia do Brasil, tem a disputa pelo mercado brasileiro e pelos recursos naturais, pelos minerais críticos e terras raras. E aí tem também uma outra questão para além dessas, que é a questão ambiental, a Amazônia e tudo que envolve a transição verde e transição energética e tal que o governo Lula tem uma visão pró-transição energética pró-economia verde. E o Flávio Bolsonaro representa exactamente o contrário. É a mesma coisa que nós já vimos no Brasil durante o governo do pai dele. Então, há uma expectativa de que o Flávio Bolsonaro. Haveria um certo desmonte da legislação ambiental do Brasil. O que pode ter um impacto bem complicado no acordo que entrou em vigor, de forma provisória em Maio, entre a União Europeia e o Mercosul." Vemos então que Lula da Silva prefere o multilateralismo, a relação com vários parceiros ao mesmo tempo, o Mercosul e uma maior proximidade com a China. Já Flávio Bolsonaro dará mais prioridade às relações com os Estados Unidos e com o Presidente Trump, podendo juntar-se à iniciativa “Escudo das Américas”, uma aliança entre países latino-americanos e os EUA para combater os cartéis. Mas, apesar da proximidade ideológica entre os novos dirigentes da direita latino-americana e Trump, não é certo que isso implique um afastamento da China. No Brasil também? Monica de Bolle: "Eu acho que um Brasil governado pelo Flávio Bolsonaro não vai conseguir se afastar da China, acho que nem essa seria a intenção, porque a China está tão entranhada na economia brasileira, assim como está na Colômbia, assim como está na Argentina, assim como está no Peru, em vários países da região, que é impossível, ainda que se queira fazer uma espécie de alinhamento ideológico, econômico, político, geopolítico e tal. Esse alinhamento com os Estados Unidos ele tem limitações. Agora, o que pode acontecer? Dada a preferência pelos Estados Unidos, isso abre menos espaço para outros parceiros do Brasil, então parceiros como a União Europeia, parceiros como eu estou pensando já no âmbito do Acordo dos Acordos com o Mercosul, além do acordo com a União Europeia. Todos esses acordos Mercosul e países da Europa contemplam regras e salvaguardas ambientais consideráveis. Eu tenho um certo temor de que, com o Flávio Bolsonaro na presidência e havendo um certo desmonte dessa legislação ambiental brasileira, que possa haver uma reviravolta nesses acordos, sendo o ainda o acordo Mercosul-União Europeia provisório. Então poderia haver um certo revés aí nessas relações e isso seria bastante prejudicial para todos, inclusive para o Brasil. O que eu acho é que numa eventual presidência do Flávio Bolsonaro, embora não haja um cenário de afastamento do Brasil em relação à China, pode haver um afastamento do Brasil em relação a outros parceiros." E olhando para o mapa político da América Latina, hoje muito inclinado para a direita radical e a extrema-direita, como aconteceu recentemente na Colômbia e no Perú, e sendo agora a maior democracia da região a ir a votos, como explicar esta viragem à direita? Monica de Bolle: "Eu acho que essa virada é menos sólida do que parece, assim como de certa maneira foi a "Pink Tide". Porque não é que exista propriamente uma mudança completa de na sociedade, e nos valores. Eu acho que não é isso exactamente o que acontece, o que acontece é uma fadiga. Todos esses países, e nisso é muito parecido com o que a gente vê acontecendo no restante do mundo, e na Europa em particular, como com os protestos que a gente vê na França, por exemplo. Acho que existe uma fadiga completa com governos que não conseguem entregar o que prometem. E no caso do Brasil, e aí eu acho que o Brasil é um pouquinho diferente dos outros. Quando eu digo aos outros, eu estou falando dos outros na América Latina especificamente, porque o Brasil, o Lula já no terceiro mandato dele. Então, essa fadiga da qual eu falo, ela é compreensível de várias maneiras, mas inclusive porque o próprio presidente Lula já foi presidente três vezes. Então, as pessoas estão de fato buscando alguma coisa diferente. Infelizmente, o sistema político brasileiro falhou, como tem falhado outros sistemas políticos mundo afora, mas falhou em apresentar candidatos de facto novos e, de facto, com novas propostas. Porque o Lula, estando aí concorrendo à presidência pela quarta vez, não é uma novidade. E o Flávio Bolsonaro tampouco, porque ele, afinal de contas, representa uma linha de governo e uma linha de pensamento que já ocupou a Presidência da República no Brasil entre 2019 e 2022. Então, o caso brasileiro, eu acho, é um pouco diferente, por exemplo, do (Javier) Milei, na Argentina. O Milei da Argentina, de facto se apresentou como uma novidade e foi eleito por ser novidade. O mesmo vale para o (Abelardo) de la Espriella, na Colômbia, sendo que lá também foi uma eleição extremamente contestada e muito polarizada. No final, a gente viu também um segundo turno em que o candidato da esquerda, que era uma certa extrema-esquerda, é o candidato da extrema-direita. Ficaram cabeça a cabeça na contagem final de votos, então, a gente viu lá realmente uma uma divisão profunda. Eu acho que a história na América Latina é muito mais uma história de polarização mais aprofundada, do que uma história de 'ah, estão todos preferindo a extrema-direita.'"