
Homilia do quinto domingo de páscoa Jesus no Evangelho frequentemente usa imagens familiares ao seu povo. Hoje, ele fala da videira e dos ramos. No Antigo Testamento, essa imagem já era usada para se referir aos cuidados de Deus com seu povo (cf.: Isaías 5). No entanto, no Evangelho de João, Jesus se declara a verdadeira videira, com o Pai como agricultor e seus discípulos como os ramos. Vamos explorar essa bela imagem. A videira é uma planta exuberante e robusta, mas também frágil e necessitada de cuidados. Os ramos só conseguem produzir frutos se estiverem conectados ao tronco. Quando se soltam, eles secam e se tornam inúteis para a videira; esses precisam ser recolhidos pelo agricultor. A missão do agricultor, porém, não é apenas limpar a videira; ele também precisa podá-la. A imagem da poda é ao mesmo tempo agressiva e essencial para este contexto bíblico. A poda precisa ser vista sob uma perspectiva positiva. Todo ramo que não produz frutos, antes de ser removido da videira, passa por um processo de poda como uma chance de se revitalizar. Interessante notar que geralmente são os ramos mais exuberantes que mais precisam da poda. Este processo concentra a seiva que vem do tronco, permitindo que a regeneração ocorra. O ramo se torna mais saudável ao liberar-se do que antes parecia essencial, mas era apenas aparência. Quantas coisas acumulamos na vida que são apenas ilusões? Para permanecermos na verdadeira videira que é Jesus, precisamos aceitar a poda, deixar que Ele remova o que acumulamos e que só reflete nossa autossuficiência, nossa sede de poder e status, para que fiquemos com o que é essencial: o amor do Senhor. Permanecer em Jesus é aceitar ser podado e aprender a depender dEle. Esse é o grande desafio para nossa humanidade, tão acostumada à autossuficiência. Depender do Senhor é vê-lo como fonte e fim de tudo o que somos e fazemos. Um pequeno gesto de bondade, um olhar simples de gratidão pela vida, uma obra de misericórdia e perdão que surge em nosso coração: tudo isso vem do encontro com o Senhor. Na Eucaristia, somos alimentados pela seiva vital que nos regenera, nos perdoa, nos cura e nos abre para uma vida nova. A Eucaristia é um remédio para nossa humanidade, que precisa de poda e de cuidados. Sem esse remédio, não podemos produzir os frutos que o Senhor espera de nós. Produzir frutos é viver como um verdadeiro discípulo, alguém que depende do Senhor e está continuamente em processo de formação, disposto a transformar sua história em um ato de glorificação ao Pai. A relação entre o discípulo e Jesus é semelhante à relação que Jesus estabeleceu com o Pai: uma relação de intimidade, de abertura de coração e de profunda obediência. Assim, permanecer em Jesus é progredir nessa relação contínua de dependência. Quanto mais abertos estamos à graça, mais abertos ficamos aos cuidados e ao perdão do Senhor, e mais frutos produzimos. Esses frutos são visíveis a todos: quantas vezes os corações ao nosso redor exibem a docilidade que vem de Jesus? Quantos irmãos estendem uma mão amiga quando a vida parece nos sufocar? Quantos colocam óleo em nossas feridas? Esses gestos vêm, em grande parte, de pessoas feridas, simples e humildes, que, mesmo em suas dores, estendem as mãos para nos curar. Nesses gestos, vemos as marcas de nosso Redentor, os sinais dos pregos que Ele suportou, entregando-se por nós para gerar vida nova, vida plena. Que o Senhor nos ajude a permanecer e progredir nesse gesto de amor e de salvação.