
Homilia quarto domingo da páscoa O bom, o verdadeiro e o belo são mais do que conceitos; quero hoje defini-los de modo pessoal. Como ouvimos no evangelho de João, em Jesus se entrelaçam o bom, o verdadeiro e o belo: “Eu sou o bom pastor”. Jesus é a essência pessoal da moral, da justiça e da estética. Na antífona de comunhão deste domingo, experimentamos o centro desta liturgia pascal: “Ressuscitou o bom pastor que deu sua vida pelas suas ovelhas, e por seu rebanho foi de encontro à morte”. Nisto podemos reconhecer que a bondade não é um conceito, mas é uma pessoa que toma uma decisão: ofertar sua vida por amor. Por isso, amigos, a liturgia não pode ser o lugar de racionalizar a fé. Ela é a oportunidade de encontrarmos com uma pessoa, com Jesus, de nos fazermos necessitados de seus cuidados, de deixarmos que Ele nos conduza, de reconhecermos que aquele que é bom deu a vida por nós. De sua voz ecoa a verdade. Por isso, escutar as palavras de Jesus, na vida comunitária, é mais do que escutar histórias. O próprio Cristo é a verdade, só sua palavra pode saciar nossa sede de sentido. O Papa Bento XVI certa vez destacou a “urgência de um renovado diálogo entre estética e ética, entre beleza, verdade e bondade”. O Papa alertou para o perigo da separação dramática entre a busca somente da exterioridade da beleza e a ideia de uma beleza que nasça da verdade e da bondade. Ele dizia: “com efeito, uma busca da beleza que fosse alheia ou separada da busca humana da verdade e da beleza transformar-se-ia, como infelizmente acontece, em mero esteticismo e, sobretudo para os mais jovens, num itinerário que termina no efêmero, na aparência banal e superficial, ou até numa fuga para paraísos artificiais, mas ocultam e escondem o vazio e a inconsistência interior.” Escutar a voz do Bom Pastor é andar além do superficial da aparência e da artificialidade, é buscar aquilo que transcende, aquilo que está no interior, aquilo que confere sentido à vida, nisto está a verdadeira beleza que é capaz de salvar o mundo. Quando as nossas obras cristãs (sejam elas artísticas ou de misericórdia) são um sinal de louvor ao Pai, afirmou o Papa Bento XVI, quando comunicam “bondade e verdade” ou a integridade e santidade do artista ou autor, se tornam um meio eficaz de evangelização. É importante hoje ajudar as pessoas a “ler e perscrutar a beleza das obras de arte, inspiradas pela fé”, isso pode ajudar os cristãos a um “singular itinerário que aproxima de Deus e da sua Palavra”. Este é um belo caminho para evangelizar a cultura através da força da beleza e, como tal, o Papa exortou os fiéis a reaprender a “comunicar com a linguagem das imagens e dos símbolos… para alcançar eficazmente os nossos contemporâneos”. Mesmo nossa época que tem dificuldade de amar, pode ser tocada ainda pela beleza e pelo bom. O nascer do sol ainda fala aos corações mais endurecidos e desperta sentimentos de gratidão e de generosidade. Precisamos acreditar que a gratidão e a bondade são modos de ofertar a vida e que ainda despertam a vontade de dizer “obrigado” a alguém. Tal gratidão é o nascimento da humildade em corações orgulhosos, cujas dores de parto partirão o próprio coração. Pois o coração orgulhoso deve ser quebrantado para que possa ser curado. Assim, é apenas por meio de um coração partido que o Bom Pastor pode entrar para pastorear. Oh, Bom Pastor, que sua beleza parta nossos corações, para que possamos conhece-te verdadeiramente e para que possamos saborear de modo experimental a tua bondade e seguir tuas palavras que são a verdade. Amém.