
Homilia do Segundo Domingo da Quaresma – 2024 Do deserto, somos conduzidos à montanha. Confrontados com nossas tentações, recebemos neste domingo uma consolação. A vida cristã não é feita somente de provas; existem momentos belos onde Deus revela sua face, fazendo resplandecer a nós sua luz. Somos convidados hoje a portar no coração as experiências marcantes que tivemos com o Senhor. Primeiramente, o Evangelho de Marcos narra que Jesus escolhe Pedro, Tiago e João e os conduz a uma alta montanha. Tantas vezes meditamos sobre o aspecto da eleição de Deus como se fosse um privilégio. A primeira impressão é de que Pedro, Tiago e João fossem os melhores do grupo. Convido, irmãos, a inverter essa lógica. Deus não faz distinção de pessoas; Ele chama a todos para estarem com Ele. Os três chamados para testemunhar a transfiguração não eram os mais perfeitos do grupo, nem os mais sábios. Isso é confirmado pelo fato de que a transfiguração tinha o objetivo de não os escandalizar diante da cruz e confiar na promessa da ressurreição. Entretanto, diante da cruz, Pedro recua e nega o Senhor. Percebamos a leveza humana dessa realidade: o recuo, o medo, a dúvida fazem parte da vida cristã. Hoje, talvez o Senhor esteja nos convidando a acolher nossas inseguranças e projetá-las na luz da ressurreição. Depois que Jesus foi completamente transfigurado, uma voz do alto proclama solenemente: “Este é o meu Filho, o amado: escutai-o!” A imagem do Filho percorre toda esta liturgia. Abraão apresenta seu filho Isaac para ser sacrificado; Paulo nos fala que Deus não poupou seu Filho pela salvação da humanidade; e a voz do Pai declara Jesus como o Filho amado. A filiação não é somente uma realidade sanguínea, precisa passar pela palavra ou pelos gestos: "Este é meu Filho". Do mesmo modo, um Pai nasce quando percebe, pelos gestos ou pelas palavras, a acolhida do filho. Tornamo-nos filhos no Filho amado quando obedecemos à voz do Senhor, quando deixamos Deus ser nosso Pai, quando nos deixamos conduzir por Ele. Por fim, a palavra de Pedro: “É belo estarmos aqui”. Diante do cansaço das provas, é prazeroso ver a luz do Senhor, sentir que Ele nos acompanha e que não estamos sozinhos. Mas esse olhar para a vida é uma atitude de pessoas corajosas, de cristãos que decidem olhar a vida não a partir do pessimismo. Que veem as correções como oportunidades de crescimento; que encaram as provas como oportunidades de mostrar a Deus nossa insuficiência; que consideram a perseguição como meio de confirmação de que estamos no caminho do Senhor. Na liturgia, aprendemos a olhar de forma diferente para a vida: a passar do deserto para a montanha, da provação para a contemplação da luz que vem do ressuscitado. A condição para essa passagem é a escuta. Que neste domingo, nossos olhos se abram para a face do Senhor, e que suas palavras se tornem para nós, nesta quaresma, fonte de vida e salvação.